Um filósofo contemporâneo disse certa vez que “o maior desafio que a vida nos impõe é dar sentido a ela” (Giuliano, 2013). A frase, dita por mim num momento de epifania (rs), ainda reverbera em diversas reflexões e diálogos; afinal, todos nós buscamos o sentido para vida, cada um à sua maneira.

A reflexão que propus com a frase, e continuo provocando nas pessoas por meio do Instituto Konscio, busca levantar uma questão essencial:

Se nosso maior desafio for mesmo dar sentido à vida, nossa busca é por um “sentido DA vida” ou “sentido PARA vida”?

Reconheço que esta simples pergunta pode desencadear uma série de inquietações; especialmente no que tange crenças e religiosidade de cada indivíduo. Entretanto, sendo a Conscienciologia Humanista uma forma de pensamento livre e que promove a consciência humana por meio da conexão de diferentes saberes, o convite que faço é pensarmos na vida como espaço da nossa plena realização. Dito isso, o foco transcende do porque estamos aqui para o que podemos realizar aqui; é por meio deste realizar-se que nos tornamos responsáveis por criar novos sentidos.

Isso porque, quando nos engajamos na busca pelo sentido DA vida seguimos na direção do passado, o tempo que nos antecede; procuramos por respostas que estão para além de nós, das nossas decisões e atitudes. Neste caso, as respostas só podem vir pela fé, através de alguma revelação das diferentes tradições religiosas. Mas, mesmo com as certezas da fé, cada indivíduo é chamado a realizar sua obra, como pode ser lido nas palavras de Tiago 2:17: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”; portanto, tomemos nossas obras (feitos; aquilo que realizamos) como uma forma de dar sentido à fé e a vida; independente da fé, que possamos acreditar em nosso papel na criação.

Alguns podem perguntar sobre a perspectiva secularista; entretanto, a visão científica sobre a vida estabelece suas relações de causa e efeito (o que, com certeza, tem imenso valor). Explica diversos elementos de sua origem e evolução, sem dar necessariamente um sentido próprio DA vida (o porquê da sua existência).

Sob a ótica da Conscienciologia Humanista, escolhemos de maneira consciente pela busca de um sentido PARA vida com base em três princípios fundamentais: (1) o apreço pela jornada empreendida até aqui (passado); (2) a intencionalidade com que pensamos e agimos no hoje (presente); e (3) a transcendência da realidade atual para autorrealização das nossas potencialidades no futuro próximo e além. A partir destes princípios construímos os significados para aquilo que vivemos: as experiências individuais e relações de afeto.

 

A verdade está mesmo lá fora?

Esta mudança de paradigma, buscando um sentido PARA e não DA vida, transforma essencialmente nossa maneira de refletir; começando pelo ponto de partida. A busca passa a começar dentro de mim, não fora, noutros elementos externos ou alheios à manifestação da minha vontade; ainda que eu reconheça suas influências.

Desde a filosofia antiga, a ideia de compreender o mundo a partir de quem somos nos permitiu entender tanto a realidade que nos rodeia quanto reconhecer a maneira como nós a influenciamos. Esta é a base da nossa ideia de humanismo, uma proposta conceitual que amplia, de maneira apreciativa, a acepção do humanismo contemporâneo; e propõe o humano como sendo o criador de si mesmo e da própria realidade, além de corresponsável pela realidade dos outros. Diferente da visão clássica que tomava o homem como “valor supremo” ou a “medida de todas as coisas”; percebemos a nós humanos como agentes partícipes nas transformações do mundo à nossa volta (baseado no Manifesto pela Conscienciologia Humanista, 2015).

É fascinante descobrir que para dar sentido à vida é preciso olhar para nós mesmos e perceber nossa existência como criadores; atores e protagonistas, não meros coadjuvantes.

 

Criando sentido pelo apreço.

O simples fato de assumirmos o desafio de dar sentido à vida já demonstra nosso apreço por ela; e desperta nosso protagonismo enquanto indivíduos repletos de vontade e potencialidade.

O apreço se manifesta na forma como valorizamos toda conquista, aprendemos com cada escolha e reconhecemos a responsabilidade que nos cabe por tudo aquilo que nos acontece. Esta última (a responsabilidade) é talvez seja a mais difícil de apreciar.

Quando buscamos o sentido da vida naquilo que é externo a nós surge um sentimento de vitimismo. Mas quando o foco é a busca por um sentido para vida despertamos um senso de autorresponsabilidade que nos faz perceber outros significados e ainda mais aprendizados. Descobrimos como mudar a realidade, ainda que no médio ou longo prazo.

Mesmo quando somos afligidos por situações alheias à nossa vontade, provocadas ou não por outras pessoas, há de se apreciar aquilo que nos cabe realizar por meio de nosso potencial. Afinal, como disse certa vez Aldous Huxley:

“Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.”

 

O que vale é mesmo a intenção?

Sim, desde que a intenção seja mesmo materializada na ação! Isto porque grande parte do sentido que damos à vida advém da maneira como agimos; seja pela escolha das palavras ou na forma de agirmos diante do que nos é dito ou feito.

Ao reconhecer que nossas ações atribuem valor à vida despertamos para a necessidade de agir com mais consciência; explorando nossa intencionalidade – ato de “imprimir valor e sentido nas interações e intervenções sobre a própria realidade, assim como na dos outros” (Manifesto pela Conscienciologia Humanista, 2015).

A intencionalidade verdadeira vai muito além da realização de um desejo momentâneo; ela compreende a manifestação da vontade do indivíduo. Desta forma, ele age levando em conta o impacto que deseja provocar da realidade ao seu redor, ou a inspiração que deseja despertar no outro.

A intencionalidade gera ações conscientes; e estas imprimem valor à vida para explorar toda sua potencialidade.

 

O valor que damos à vida a faz transcender!

Se há uma fase em que o indivíduo mais dá valor à vida, esta é com certeza a infância. Ainda que muitos argumentem que valorizamos a vida quando estamos próximos do seu fim, seja pela experiência ou a visão sobre a jornada vivida, a verdade é que quando crianças damos valor à conquistas simples, percebendo nosso crescimento e aprendizado diariamente.

É na infância e juventude que olhamos a vida como palco para nossa atuação; uma tela a ser colorida; um universo cheio de possibilidades. Por diversos motivos, a maioria das pessoas perde esta perspectiva à medida em que envelhece, encaixando-se, conformando-se; sem perceber que suas aceitações e tolerâncias subtraem sentido da própria vida.

Por isso, uma das formas de dar sentido à vida envolve resgatar nosso olhar de criança; buscando perceber as possibilidades e reconhecendo que a vida envolve esta constante construção do que nos tornamos pela jornada.

Damos sentido à vida quando nos reinventamos. Como propôs Jean-Paul Sartre:

“O homem tem de se inventar todos os dias.”

 

Experimente dar ainda mais sentido à sua vida!

Será preciso apreciar mais cada momento, agir com mais intencionalidade e manter viva a vontade de transcender; tornando-se todos os dias a melhor versão de si mesmo. Mas, acredite, esse potencial faz parte de cada um de nós; não como uma “essência natural”, mas como uma existência possível de ser (auto)realizada.

Permita-se imaginar, ou mesmo sonhar, com as possibilidades que podem ser desbravadas quando você assumir o desafio de viver com sentido, ao invés de buscar o sentido de estar vivo.

Viver com propósito é a maior manifestação do sentido que o indivíduo pode dar à sua vida!

 

Rafael Giuliano,
criando novos sentidos para a vida, todos os dias!

Um comentário sobre “O Sentido da Vida!

  1. Primeiramente preciso dizer que li e voltei a ler seu texto mais de uma dezenas de vezes. Ao contrário do que pode-se imaginar sobre compreender o “sentindo da vida”, tema tão polêmico, pontuas muito bem ao recortar este assunto, que parece ilimitado, com o verbo “dar”. Ufa… (risos).

    Além de muito bem escrito, parabenizo pela ousadia ao inclinar o olhar para os cantos da vida humana. Para aquilo que “Mr. S. Kierkegaard” pontuou como “desespero humano”, noutro contexto, noutra “pegada” existencialista, o Eu. Pensar em dar sentido para a vida é tão ou mais significativo do que buscar “um” sentido para ela. Podemos dizer tanto sobre o tema que arrisco dizer: – Jamais esgotaremos o assunto.

    O sentindo da vida pode se expandir ao infinito ou simplesmente se resumir em não existir um sentido, mas parece que nossa natureza não aceita muito bem esta última hipótese, afinal somos tão únicos, tão “(in)perfeitos”, que não caberia o acaso e muito menos não ter sentido.

    Outros comentários serão enviados no particular. Parabéns!

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